IMAGEM/CIDADE:
multiplicidade e reprodutibilidade
em pontos de
reflexão
“A questão do tipo
de cidade que desejamos é inseparável da
questão do tipo de
pessoas que desejamos nos tornar.
A liberdade de
fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades dessa
maneira é,
sustento, um dos mais preciosos de todos os direitos humanos.”
David Harvey
O início do século
XX ainda carregava a crença no sucesso do capitalismo aliados a tecnologia e
industrialização. A famosa Carta de Atenas de 1933, um projeto
mundial redigida por Le Corbusier (1887-1965), apontava como deveria ser a
cidade moderna. Novas direções para pensar a Arquitetura e o Urbanismo
conduziram o sonho dos jovens construtores Modernos, com base em preceitos de
“desenvolvimento” e circulação nas cidades, que visavam: habitar, trabalhar e
recrear-se. Estava então formado o perfil e o modo de vida dos cidadãos dos
dias atuais, que já previa até mesmo qual seria o objeto de desejo desse
cidadão: um carro.
O volume de carros
nas ruas, o espaço reduzido para pedestres, a aceleração do ritmo da cidade, a
degradação ambiental e a ausência de espaços de convívio e lazer, são
resultados de um plano que previa, acima de tudo, desenvolvimento e circulação.
Assim, como paisagem de cidade optamos por viadutos, túneis, vias de retorno,
semáforos, placas de sinalização, estacionamentos, alertas de atenção...Viver
na cidade passou a ser um risco, e não possuir um carro parece ser um status de
fracasso, pois fazer parte do fluxo tornou-se fundamental.
Muitas vezes sem
termos a noção que paisagem é uma construção cultural, eximimo-nos do direito
de participar do pensamento sobre a cidade, e, nesta lógica, ignoramos o fato
de poder opinar. Abrimos mão do escolher como viver a cidade, e, assim,
deixamos de inventá-la dia após dia. Fazendo uso do direito à liberdade de ver,
pensar, expor o nosso ponto de vista sob a perspectiva do sujeito urbano, que
circula, trabalha e vive a cidade, é que imagens cheias de experiência foram
produzidas para essa mostra.
Sendo arte, são imagens carregadas da
complexidade da trama que tece o viver e procuram oferecer através da presente
exposição uma possibilidade de crítica e de resistência ao mundo atual. Sonhar
com uma outra cidade é mais do que nunca uma questão de sobrevivência.
Revigorar o uso da utopia através da arte talvez nos ofereça uma resposta ou,
quem sabe, nos proporcione mais esperança.
Sem pretender mudar o mundo, mas
reagindo a ele, esse grupo tenta dar visibilidade às questões já banalizadas
pelo viver urbano, abrindo uma fenda breve, uma nova imagem. São múltiplas as
formas de acessar esse imaginário da cidade, tal o modo rizomático em que ela
se “organiza”, para isso decidimos que também seria relevante tornar múltipla a
forma de acesso a essa produção. Propomos, então, uma edição que cria uma
experiência entre trabalho artístico e público, que vai para além da exposição
em galeria, através da reprodutibilidade dessas imagens. Cada trabalho aqui
exposto foi reproduzido para ser levado e colecionado pelo público e, assim,
criar onde todos vivemos uma demarcação crítica, um ponto de reflexão.
Helene Sacco
Doutoranda do
PPGAV/UFRGS